Furto de cabos de cobre dobrou neste ano no DF

Pela quarta vez durante um mês, comerciantes da 403 Norte ficaram sem energia por conta de furto dos fios de cobre. Eles criticam a ausência de soluções mais firmes por parte da Companhia Energética de Brasília (CEB) e da Polícia Militar, e contabilizam os prejuízos de quatro dias em que tiveram o lucro afetado. Só ontem, todo o Bloco E ficou sem energia até as 15h30, porque os ladrões levaram quatro cabos de 75 metros. Apenas em agosto, a PM atendeu 11 ocorrências similares.
Do ano passado até este ano, a quantidade de cabos furtados dobrou: em 2017, foram 9.825 metros levados das redes subterrâneas, e, em 2018, o número já passa dos 18 mil metros – sendo que o ano ainda nem terminou. O prejuízo aos cofres públicos soma R$ 873,9 mil. O ano em que a CEB mais teve prejuízo foi em 2015, com 50 mil metros de cabos furtados, representando uma perda de R$ 1,8 milhão.
“A raiva já passou. O que fica é a vontade de desistir, porque essa é a quarta vez em menos de um mês”, desabafa Rodrigo Melo, 28, chefe e sócio do Cantucci Bistrô. Rodrigo conta que por volta das 5h de ontem, um cozinheiro chegou mais cedo ao restaurante para adiantar o preparo das comidas, mas ouviu um barulho. Foi quando a energia começou a ficar instável. “Ele saiu e viu os bandidos. Eles só falaram ‘vamos, vamos, isso aqui não vai dar nada’”, aponta. Para transportar os cabos, os criminosos usaram um carrinho de supermercado. As circunstâncias direcionam suspeitas a moradores de rua.
Se para os ladrões não vai dar em nada, já que a própria PM afirmou ao JBr. que na ocorrência não consta que houve o furto, para Rodrigo os prejuízos são incalculáveis. Ontem, o restaurante abriu sem energia e recebeu cerca de 60 clientes, enquanto em dias normais seriam 100. “Teve cliente que sentou na mesa e foi embora. Os que ficaram não puderam pedir café, suco. Só servimos refrigerante porque dava para colocar gelo”, conta.
No mês passado, Rodrigo perdeu equipamentos. “No primeiro furto, eles roubaram o cabo neutro e a energia ficou em uma fase. Perdi computador, modem, impressora e tive que pagar um eletricista para refazer toda rede”, destaca.
Para ele, todo esse tempo gasto com o reparo dos cabos poderia ser empregado em outras coisas. “A economia não está boa, tivemos queda no faturamento desde 2016. Em vez de me dedicar a soluções para voltar a faturar, fico perdendo tempo para ver como vou ter energia”, critica. “O pessoal da CEB vem e a única que eles fazem é colocar novos cabos. Não tem nenhuma medida além disso”, completa.
Atendimento improvisado ou inviável
O empresário Benoît Ratabaul, 38 anos, nem mesmo conseguiu abrir a padaria dele. A loja precisa da energia para preparar os pães e assá-los. “Para mim é muito ruim. Tudo depende 100% de energia. Temos coisas congeladas, resfriadas, temos que abrir massa, ver com está. É muito complicado, está sendo bem difícil”, lamenta. Ele estima que só ontem o prejuízo foi de R$ 3 mil, sem contar as outras três vezes no mês passado.
Ele também critica as medidas da CEB. “Para abrir a rede, tem que ser profissional, tem que saber o que vai cortar, tem que ter a chave para abrir. Tudo isso mereceria fazer com que a CEB procurasse atitudes mais firmes, em vez de simplesmente trocar. Até por conta da responsabilidade que ela tem de garantir o fornecimento aos clientes”, sugere.
Para não perder os clientes, a dona de uma loja de cestas de café Valéria Wandalsen, 57 anos, relembrou o passado. No subsolo, onde a luz do sol não bate, a lâmpada elétrica deu lugar à lamparina. “As meninas estão montando as cestas no escuro mesmo. Contam com a luz do celular e do lampião”, conta. “É um absurdo isso acontecer. Vamos perdendo a esperança, porque a gente sabe que ninguém vai fazer nada para parar”, completa.
Ocorrências constantes
Um funcionário da CEB, que preferiu não se identificar, relata que os furtos são constantes e avalia que não há mais nada a ser feito. “Gastaram milhões para melhorar as travas, mas eles conseguem quebrar”, conta. “O prejuízo vem para a CEB, porque precisa repor os cabos várias vezes, e para os moradores e comerciantes, porque têm casos que queimam equipamentos”, completa.
Ele conta ainda que as ocorrências são mais constantes no Plano Piloto. “São onde a rede é subterrânea. Asa Sul, Asa Norte, Cruzeiro. Tem lugar em que se troca hoje e amanhã já tem que voltar de novo. Na área rural, lá em Planaltina, por exemplo, onde não é subterrâneo, os bandidos levam o transformador”, comenta.
No furto da Asa Norte, os bandidos levaram quatro cabos de 75 metros, conforme contou o funcionário ao Jornal de Brasília. Com essa quantidade, ele estima que os criminosos possam lucrar cerca de R$ 3 mil com a revenda clandestina do material.
Versão Oficial
Em nota, a CEB explicou que para prevenir os furtos são registrados boletins de ocorrência para investigações da Polícia Civil, mas também vem substituindo os fios de cobre por alumínio onde é possível, já que “este metal tem menor valor de mercado”. Além disso, a companhia explica que barreiras de concreto são instaladas para evitar o acesso às caixas subterrâneas. “A população pode ajudar denunciando à polícia movimentação de pessoas suspeitas próximas às estações transformadoras e caixas subterrâneas”, finaliza a nota.
A Polícia Militar, por outro lado, apontou em nota que, em muitos casos, ao se chegar ao local, a corporação “não se constata a ocorrência do crime”, assim como informaram sobre o caso específico da 403 Norte. A PM disse apenas que “quando um crime apresenta um mesmo modus operandi é necessário que um trabalho investigativo seja feito a fim de identificar os autores”.
