Mudança abre caminho para a descentralização, com ocupação do CAD-DF

Com economia de R$ 168 milhões por ano, ocupação do CAD-DF, em Taguatinga, pode redefinir a dinâmica administrativa, econômica e urbana da capital

Após mais de uma década, o Centro Administrativo do Distrito Federal (CAD-DF), em Taguatinga, começará a cumprir a função para a qual foi concebido: reunir parte da estrutura do Governo do Distrito Federal (GDF) em um único espaço. A ocupação gradual do complexo, anunciada pelo GDF, vai além da mudança de endereço de algumas secretarias. A medida promete alterar a dinâmica da máquina pública, gerar economia aos cofres do governo, fortalecer um novo eixo de desenvolvimento fora do Plano Piloto e redesenhar a relação entre o Estado e a população.

A primeira fase da transferência deve ocorrer nos próximos 90 dias e ocupará cerca de 31% da estrutura. Entre os órgãos que deixarão imóveis alugados estão as secretarias de Obras, Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh); Mobilidade; Meio Ambiente; e o DF Legal. Segundo o governo, a iniciativa vai gerar uma economia de até R$ 168 milhões por ano com despesas de aluguel, recursos que poderão ser direcionados para áreas como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura.

Em cerimônia realizada no Palácio do Buriti, na semana passada, a governadora Celina Leão (PP) destacou que a decisão não foi motivada apenas pela necessidade de reduzir gastos. “É sobre termos mobilidade e descentralização aqui da capital, para que a gente possa ter uma mobilidade mais fluida e outros tipos de localização estratégicas no Distrito Federal”, afirmou.

Além da redução de despesas, o GDF aposta em ganhos de eficiência administrativa. Com diferentes órgãos funcionando em um mesmo local, a expectativa é de facilitar a integração entre equipes, agilizar processos internos e simplificar o atendimento à população, que poderá resolver diferentes demandas governamentais em um único endereço.

Após mais de uma década de espera, o Centro Administrativo do Distrito Federal (CAD-DF), em Taguatinga, começará finalmente a cumprir a função para a qual foi concebido -  (crédito: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

De acordo com o secretário de Obras e Infraestrutura, Valter Casimiro, os prédios passam por uma força-tarefa de recuperação para garantir condições adequadas de funcionamento antes da transferência dos servidores. Casimiro explica que as intervenções incluem “impermeabilização das coberturas, recuperação de infiltrações, pintura interna e externa, substituição de vidros danificados e reparos pontuais em estruturas afetadas pela ação do tempo”, descreve.

Além dos serviços de manutenção predial, as equipes trabalham na instalação e adequação das redes elétrica e lógica, responsáveis por garantir o funcionamento de computadores, sistemas internos e equipamentos de comunicação necessários à rotina dos órgãos públicos que serão instalados no local.

 10/06/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Taguatinga, visita ao Centro Administrativo, (CENTRAD) - Walter Cassimiro, secretario de obras do GDF.
O secretário de Obras, Valter Cassimiro, detalhou os serviços no local

Economia e deficit

Apesar do valor expressivo, especialistas avaliam que a economia não é suficiente para solucionar os atuais problemas fiscais do GDF. Para o professor de finanças do Ibmec Brasília Melquezedech Moura, a medida representa um avanço na racionalização dos gastos públicos, mas precisa ser entendida dentro de uma estratégia mais ampla de ajuste fiscal. “A economia anual, estimada em R$ 168 milhões, representa uma medida importante de racionalização dos gastos públicos, mas não é suficiente, por si só, para solucionar o deficit bilionário.”

Segundo o economista, esse deficit, estimado em R$ 5,5 bilhões pelo secretário de Economia Valdivino de Oliveira, evidencia que o desequilíbrio fiscal está ligado a fatores estruturais, como despesas obrigatórias e rigidez orçamentária. “Ao substituir despesas contínuas com aluguéis por um imóvel público já disponível, o governo reduz custos operacionais sem comprometer a prestação dos serviços.”

Moura ressalta que a utilização do complexo corrige uma distorção histórica na administração pública. “Trata-se da recuperação de um patrimônio público que permaneceu subutilizado por anos. A medida transforma um bem que gerava custos em um instrumento de geração de economia.”

Nova centralidade 

Do ponto de vista urbanístico e da mobilidade, a ocupação do CAD-DF é vista como um passo importante para reduzir a concentração histórica de atividades no Plano Piloto.

Especialista em mobilidade urbana, Wesley Ferro destaca que a criação de novas centralidades é uma das diretrizes defendidas pelas políticas modernas do setor. “A política de mobilidade urbana pressupõe que as viagens feitas por transporte público, a pé, por bicicleta e outros modais ativos sejam priorizadas. Ela defende a criação de várias centralidades dentro do território, aproximando serviços, empregos e atividades econômicas da população para reduzir a necessidade de longas viagens motorizadas.”

Para ele, apesar de bem-vinda, a ocupação do centro administrativo chega com atraso, mas está alinhada a uma transformação que vem ocorrendo no Distrito Federal. “Houve uma pseudoinauguração em 2014, mas nunca a efetiva ocupação daquele espaço. A mudança é positiva porque direciona movimentos da cidade para outras regiões administrativas e tira parte do peso que o Plano Piloto ainda recebe.”

Wesley lembra que o deslocamento do centro de gravidade da capital já é percebido há décadas. Dados da Pesquisa Origem-Destino mostram que o Plano Piloto, que em 1979 atraía 82% das viagens do DF, hoje concentra cerca de 42% das viagens realizadas por transporte público. Já o eixo oeste, formado por Taguatinga, Ceilândia e Águas Claras, ganhou protagonismo. “O eixo oeste se consolidou como uma nova centralidade do Distrito Federal. A ida do CAD para essa região reforça esse movimento”, ressalta.

Localização estratégica

A localização do Centro Administrativo é apontada pelo governo como um dos principais diferenciais do projeto. O complexo está situado próximo a Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Águas Claras, regiões que, juntas, concentram cerca de um milhão de habitantes.

A estrutura conta com acesso à Rodoviária de Taguatinga e a uma estação de metrô, o que, em tese, facilitaria o deslocamento tanto de servidores quanto da população que busca atendimento nos órgãos públicos.

Além das áreas destinadas às secretarias, o CAD-DF possui espaços comerciais integrados ao sistema metroviário. A intenção do governo é estudar a concessão dessas áreas para exploração pela iniciativa privada, utilizando a receita obtida para ajudar a custear a manutenção do complexo.

 10/06/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Taguatinga, visita ao Centro Administrativo, (CENTRAD)
10/06/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF – Taguatinga, visita ao Centro Administrativo, (CENTRAD)

Impactos econômicos 

A mudança pode impulsionar a economia da região. Com a circulação diária de aproximadamente 1,6 mil a 2 mil servidores, especialistas projetam aumento na demanda por restaurantes, comércio, serviços e transporte.

A governadora Celina Leão tem destacado o potencial de valorização das regiões próximas ao complexo. “Eu acho que vai valorizar os imóveis que estão ali ao redor, vai valorizar o metro quadrado de Taguatinga. Não somente Taguatinga, mas Ceilândia tem muito a ganhar com isso”, disse.

Para Melquezedech Moura, o fenômeno pode ser explicado pelo chamado efeito multiplicador. “O principal efeito da mudança não está apenas no aumento imediato do consumo, mas na capacidade de consolidar Taguatinga como um polo econômico e administrativo mais robusto. Trata-se de uma estratégia que combina eficiência na gestão pública com potencial de dinamização econômica regional.”

Urbanista e professor da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Flósculo entende que a medida pode representar uma mudança importante na organização territorial do DF. “A concentração das secretarias do GDF num grande conjunto é uma excelente ideia. Não apenas elimina o gasto milionário com aluguéis, como racionaliza o acesso da maior parte da população aos serviços governamentais distritais.”

Para ele, a ocupação do CAD deve ser entendida como o início de um processo mais amplo de descentralização administrativa. “A vitalização desse grande centro administrativo é um primeiro passo para descomprimir o Plano Piloto, onde tudo se concentra de forma desequilibrada.”

Mobilidade 

Se a descentralização é vista como positiva, especialistas alertam que ela precisará ser acompanhada por investimentos em transporte público.

Wesley Ferro assinala que o principal ponto de atenção é a capacidade atual do metrô de absorver o aumento da demanda provocado pelo funcionamento do complexo. “O metrô, na configuração atual, não consegue atender a um possível incremento de passageiros com a abertura do CAD. O sistema já opera em um nível de estrangulamento preocupante.”

De acordo com ele, embora o sistema tenha sido projetado para transportar até 600 mil passageiros por dia, atualmente atende cerca de 134 mil usuários diários e enfrenta limitações operacionais. “Boa parte da frota está fora de operação e os intervalos entre os trens chegam a 12 ou 14 minutos nos horários de pico, algo inconcebível para um sistema de alta capacidade.”

Na avaliação do especialista, a mudança precisa ser acompanhada por medidas concretas. “Não dá para transferir toda essa responsabilidade para o automóvel. Precisamos investir no transporte público. É necessário criar faixas exclusivas para ônibus na Elmo Serejo, modernizar o metrô e discutir alternativas, como o escalonamento dos horários das atividades econômicas para reduzir a pressão sobre os horários de pico.”

Flósculo faz alerta semelhante. “Essa mudança deve implicar investimentos em transporte de massa. Sem uma revolução na mobilidade, poderão surgir novos problemas de congestionamento.”

Segundo a governadora, a ampliação da infraestrutura viária está sendo planejada para viabilizar a ocupação total do complexo. “É bom lembrar que investir em infraestrutura viária é investir na cidade como um todo. As obras vão permitir a ocupação de 100% do CAD-DF, mas vão beneficiar toda a região”, disse Celina, ao citar os projetos para construção de dois novos viadutos de acesso ao centro administrativo.

Secretarias que vão para o Centrad e quantidades de servidores 

  • Secretaria de Obras: 200 – Complexo da Novacap, EPIA Sul
  • Seduh: 544 – Setor Comercial Norte, Quadra 01, Bloco A – Edifício Number One
  • Sema: 168 – SEPN CRN 511 Ed. Bittar III – Blocos B – Asa Norte
  • DF Legal: 713 – Trecho 03, Lotes 1545/1555, Térreo – SIA / DF
  • Secretaria de mobilidade: 544 – Estão lotados em três locais: no Anexo do Buriti (15º andar), no prédio da Infra (no Setor de Autarquias Sul) e em imóvel do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA)

Total: 2.169

Siga ODEMOCRATA no Instagram/Facebook nos links www.instagram.com/odemocrata____https://www.facebook.com/portalodemocrata
📰 Confira as principais notícias do Distrito Federal, Goiás e do entorno de Brasília, além dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo 🌎 , com destaque especial para conteúdos regionais 📍 e informações de utilidade pública que impactam o seu dia a dia.
✔️ ANUNCIE CONOSCO
✅ WhatsApp 📱(61)99414-6986
PORTAL DE NOTÍCIAS 📲 ODEMOCRATA
🌎 SEMPRE CONECTADO COM VOÇÊ 🖥️

fonte:

Correio Brasiliense

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *