Moradores denunciam falhas em serviços públicos e cobram planejamento em Pirenópolis
Coleta de lixo irregular, falta de saneamento, problemas de mobilidade e deterioração de espaços históricos estão entre as principais reclamações sobre a infraestrutura da cidade

Conhecida pelo patrimônio histórico, pelas cachoeiras e pela movimentação turística, Pirenópolis enfrenta reclamações de moradores sobre a coleta de lixo, a conservação dos espaços públicos, o saneamento básico e a mobilidade urbana. Em entrevistas ao Jornal Opção, três moradores apontaram problemas que, segundo eles, afetam a rotina da população e exigem planejamento permanente do poder público, inclusive nos períodos de menor movimento turístico.
As críticas também envolvem a preservação ambiental, o funcionamento de equipamentos culturais e a realização de eventos no Centro Histórico. Para os entrevistados, o desafio é conciliar a atividade turística com a qualidade de vida de quem vive na cidade durante todo o ano.
O município tinha 26.690 habitantes no Censo Demográfico de 2022 e possui 2.200,369 quilômetros quadrados de área territorial, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa populacional para 2026 é de 28.292 habitantes. Os números ajudam a dimensionar as características de um município extenso, mas não incluem a população flutuante de turistas que visitam a cidade ao longo do ano.
O turismo também tem peso na estrutura econômica local. Um levantamento do Observatório do Turismo de Goiás, vinculado à Goiás Turismo, realizou visitas a 172 estabelecimentos de hospedagem em Pirenópolis em 2024. O dado se refere aos empreendimentos visitados pela pesquisa, e não ao número de turistas recebidos pelo município.
Turismo não é o problema, avalia advogada
A advogada especialista em Direito Público e presidente da Comissão de Turismo Rural da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG) em Pirenópolis, Ynaê Siqueira Curado, avalia que o turismo não deve ser responsabilizado pelas dificuldades enfrentadas pelo município. Para ela, cabe à administração pública dimensionar os serviços de acordo com a demanda.
“Turismo não é problema. Na verdade, se não fosse o turismo aqui na cidade de Pirenópolis, a cidade estaria toda arrebentada, literalmente. O turismo é quem banca a qualidade de vida do povo hoje, porque infraestrutura pública é zero na cidade”, afirma.
Segundo Ynaê, a coleta de lixo é um dos serviços que mais evidenciam os problemas. Ela relata que as falhas não ocorrem apenas nos fins de semana e feriados, quando o fluxo de visitantes aumenta, mas também durante os dias úteis.
“A coleta de lixo aqui é caótica. E não é só quando tem feriado. Durante a semana tem vezes que o caminhão não passa, o lixo se acumula. Então, não pode falar que é o turista que causa esse problema, porque o problema está na gestão”, diz.

Na avaliação da advogada, a Prefeitura precisa organizar a coleta considerando os períodos de maior movimento e as necessidades permanentes da população. A frequência das interrupções e os bairros afetados, no entanto, precisam ser dimensionados por meio de registros e informações do serviço municipal.
Infraestrutura e saúde
A falta de manutenção dos espaços públicos também aparece entre as reclamações. Ynaê aponta problemas na iluminação, na conservação das ruas e na manutenção de áreas públicas. Segundo ela, iniciativas privadas acabam assumindo responsabilidades que deveriam receber atenção do poder público.
“Você pode olhar: tudo que é privado é bom. Pode olhar, tudo que é público, é ruim”, declara.
A advogada também critica as condições dos serviços municipais de saúde. Segundo ela, unidades básicas enfrentam dificuldades relacionadas à disponibilidade de equipamentos e às condições de trabalho dos profissionais. Ela questiona ainda o modelo de contratação por credenciamento, que, em sua avaliação, oferece pouca segurança aos trabalhadores e dificulta a permanência de profissionais no município.
Pirenópolis conta com o Hospital Estadual Ernestina Lopes Jaime, que, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, dispõe de 34 leitos de enfermaria e oferece atendimento de urgência e emergência, além de consultas especializadas. A unidade é de média complexidade e integra a rede estadual de saúde.
A existência do hospital, segundo Ynaê, é importante para a população, mas não elimina a necessidade de investimentos na rede municipal, especialmente na atenção básica.
As estradas rurais que dão acesso aos atrativos turísticos também são motivo de preocupação. A advogada afirma que empresários precisam se mobilizar para realizar melhorias em trechos que, segundo ela, deveriam receber atenção do município.
Crescimento urbano e saneamento preocupam ambientalistas
O crescimento da cidade sem planejamento suficiente é uma das preocupações apresentadas pelo ambientalista e presidente do Conselho de Meio Ambiente de Pirenópolis, Cristiano Costa.
“A cidade está se desenvolvendo de uma forma muito acelerada, mas não está tendo uma boa coordenação efetiva para que coordene esse desenvolvimento acelerado, principalmente o desenvolvimento urbano”, afirma.
Segundo Cristiano, o saneamento básico não alcança todas as áreas do município. Ele relata que esgoto e água servida chegam a cursos d’água que deságuam no Rio das Almas. Entre os locais citados estão trechos dos córregos das Almas, do Rego e do Lavapés.
Na avaliação do ambientalista, a situação exige ampliação da rede coletora, fiscalização e medidas para impedir o lançamento irregular de efluentes.
Os dados de cobertura do esgotamento sanitário e a situação dos pontos citados precisam ser confrontados com informações da Prefeitura, da Saneago e dos órgãos ambientais. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), do Ministério das Cidades, reúne indicadores sobre abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos e drenagem urbana. A edição de 2025 tem como ano de referência 2024.
Cristiano também critica a fiscalização de eventos realizados na cidade. Segundo ele, festas que avançam pela madrugada provocam perturbação do sossego, especialmente devido à propagação do som pelas montanhas e construções.
“A cidade é dentro de um vale, então o som fica reverberando nas montanhas, nos muros, em todos, e volta para a cidade”, explica.
O ambientalista afirma que moradores já procuraram órgãos responsáveis para registrar reclamações e defende a aplicação efetiva de regras que estabeleçam horários e locais adequados para as apresentações.
Ele também relata desânimo entre integrantes dos conselhos municipais, que, segundo sua avaliação, não recebem respostas satisfatórias às demandas encaminhadas à Prefeitura.

“Quando a gente questiona as coisas, as respostas também demoram”, afirma.
Para Cristiano, a falta de diálogo dificulta a participação da sociedade nas decisões sobre o município. Ele diz que integrantes dos conselhos de Turismo e de Meio Ambiente têm se sentido desmotivados diante da demora nas respostas às reivindicações apresentadas.
Patrimônio histórico e espaços públicos
A conservação dos espaços históricos e culturais é outra preocupação dos moradores. Cineasta e diretora de arte cenográfica, Úrsula Ramos vive em Pirenópolis há mais de três décadas e afirma que a cidade precisa garantir condições básicas tanto para quem mora no município quanto para quem o visita.
“É uma cidade turística que precisa do básico, porque, além de nós, moradores daqui, nós recebemos turistas de todos os lugares do Brasil e do mundo”, afirma.
Entre os problemas apontados por ela estão a falta de banheiros públicos no Centro Histórico e na região da beira-rio, a quantidade insuficiente de lixeiras, a iluminação deficiente e a falta de manutenção em áreas afastadas do centro.
“A cidade fica suja, principalmente no final de semana”, relata, ao defender a instalação de mais lixeiras e a realização de campanhas de conscientização sobre o descarte correto de resíduos.
Úrsula também demonstra preocupação com postes que, segundo ela, apresentam problemas elétricos, e com a retirada de árvores da cidade. Para a cineasta, a arborização deve ser tratada como parte da qualidade de vida e da identidade paisagística de Pirenópolis.
“Em vez de plantar árvores, eles cortam”, critica.
A moradora defende iniciativas de educação ambiental e plantio de mudas, inclusive com a participação de escolas, para ampliar a cobertura vegetal e estimular a preservação da natureza entre crianças e adolescentes.
Cine Teatro Pireneus
Outro ponto levantado por Úrsula é a situação do Cine Teatro Pireneus, equipamento cultural histórico que, segundo ela, não está aberto regularmente para exibições de filmes e apresentações teatrais.
A cineasta afirma que o espaço tem sido utilizado principalmente para reuniões e palestras e que obras anunciadas não resultaram, até o momento, na retomada regular das atividades culturais.
“O Cine Pireneu já foi uma coisa belíssima, maravilhosa. O pirenopolino tem a cultura de ir ao cinema e ir ao teatro”, afirma.
Úrsula destaca que o espaço tem importância para os moradores e para os visitantes que chegam à cidade durante festivais e outros eventos culturais.
“Eu acho que a Prefeitura tem que abrir o cinema para o povo pirenopolino e para o turista”, defende.
A situação atual do equipamento, o histórico das intervenções e o calendário de funcionamento precisam ser esclarecidos pela administração municipal.
Praça do Largo da Matriz

A Praça do Largo da Matriz também é alvo de críticas. Úrsula contesta as intervenções realizadas no local e afirma que a antiga praça tinha importância histórica, paisagística e afetiva para a população.
“Era uma praça que ficava ali para todos, em frente a um colégio. Então, assim, o Iphan junto com a Prefeitura erraram muito nesse ponto. Nós queremos a praça de volta”, afirma.
A crítica envolve a atuação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Prefeitura. Para esclarecer as circunstâncias das intervenções, é necessário consultar os projetos, as autorizações e os documentos que fundamentaram as mudanças, além de ouvir os órgãos responsáveis.
Segundo a moradora, a realização de eventos na área, com palcos, fogos e música em volume elevado, prejudica quem vive no Centro Histórico, incluindo pessoas idosas, recém-nascidos e pessoas com necessidades específicas.
Ao comentar eventos recentes, Úrsula também critica a sujeira deixada após as apresentações e o barulho provocado pelos fogos de artifício. Para ela, o planejamento das festividades precisa considerar quem mora na região durante todo o ano.
“Nós não somos turistas, nós somos moradores. Nós recebemos o turista, atendemos de braços abertos. Mas acabar com o sossego da gente também não”, afirma.
A cineasta defende que o município encontre espaços adequados para grandes apresentações sem comprometer o descanso dos moradores e a preservação dos espaços históricos.
Trânsito, acessibilidade e qualidade de vida
A mobilidade urbana aparece como mais um desafio. Ynaê afirma que a cidade precisa de planejamento para organizar a circulação de veículos e pedestres, especialmente nas regiões com maior concentração de comércio e visitantes.
Ela defende que as decisões sejam fundamentadas em estudos técnicos capazes de identificar os pontos mais críticos e orientar as intervenções.
A advogada também volta a mencionar as estradas rurais que dão acesso aos atrativos turísticos. Segundo ela, a falta de manutenção compromete o deslocamento e exige mobilização de empresários para a realização de melhorias.
“O município não arruma. Se os empresários não se mobilizarem e não arrumarem, não avança”, afirma.
Cristiano, por sua vez, relata dificuldades para atravessar ruas, problemas de estacionamento e calçadas quebradas ou ocupadas por veículos. Segundo ele, essas condições prejudicam principalmente pessoas idosas e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
“Calçada quebrada, carro parado em calçada. Os passeios públicos têm que ter acessibilidade para pessoas, principalmente pessoas de idade e pessoas com necessidades especiais”, afirma.
O ambientalista também aponta dificuldades no trânsito durante a semana, quando o movimento turístico é menor. Na avaliação dele, a situação se agrava nos períodos de maior circulação de visitantes, quando a falta de estacionamento dificulta o deslocamento pelo Centro Histórico.
O crescimento do comércio na região também preocupa Cristiano. Segundo ele, a transformação de imóveis residenciais em estabelecimentos comerciais e hospedagens reduz a presença de moradores nas áreas tradicionais da cidade.
“Mas a maioria das ruas do Centro Histórico já está toda virando comércio. Não tem mais um morador local no Centro Histórico”, afirma.

A declaração expressa a percepção do entrevistado sobre as mudanças na ocupação urbana. Para dimensionar esse processo, seriam necessários dados sobre uso dos imóveis, licenciamento de atividades comerciais e evolução da oferta de hospedagem na região.
Úrsula também questiona o funcionamento de casas de temporada. Ela afirma que há casos de perturbação do sossego e defende fiscalização mais rigorosa para conciliar a atividade turística com o direito dos moradores ao descanso.
“Eu acho que tem que ser tratado com mais carinho. […] O meu povo quer a cidade dele arrumada, sabe? Quer que as coisas funcionem para todos”, afirma.
Para os três entrevistados, o desafio de Pirenópolis é garantir que a expansão do turismo seja acompanhada por serviços públicos, planejamento urbano e preservação ambiental e cultural.
A avaliação dos moradores é que a cidade precisa de medidas permanentes de manutenção, fiscalização e investimento em infraestrutura, para além de ações pontuais de conservação e embelezamento.
Posicionamento da Prefeitura
A Prefeitura de Pirenópolis foi questionada pelo Jornal Opção sobre as reclamações apresentadas pelos moradores, incluindo os problemas relatados na coleta de lixo, na infraestrutura urbana, na saúde, no saneamento, na mobilidade e na conservação dos espaços públicos.
Pirenópolis completa 299 anos e se aproxima do tricentenário

Pirenópolis completou 299 anos em 7 de outubro de 2026. A história do município começou em 1727, quando surgiu o arraial de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, ligado à exploração do ouro na região.
De acordo com o histórico publicado pela Prefeitura, o povoado se formou a partir da chegada de um grupo de garimpeiros liderado por Manoel Rodrigues Tomás, ligado às expedições do bandeirante Anhanguera. A mineração impulsionou o crescimento inicial do arraial e influenciou a organização das primeiras ruas e construções.
O desenvolvimento urbano ocorreu em torno da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário e, posteriormente, de outras construções religiosas, como as igrejas do Bonfim e do Carmo. A arquitetura, as ruas de pedra e os casarões preservados se tornaram algumas das principais marcas da cidade.
Com a redução da exploração do ouro na segunda metade do século XVIII, o crescimento econômico perdeu força. Ao longo dos séculos seguintes, o município passou por mudanças administrativas e econômicas.
Em 10 de julho de 1832, o arraial foi elevado à condição de vila, instalada em 14 de abril de 1833. Em 1853, a Vila de Meia Ponte foi elevada à categoria de cidade. O nome Pirenópolis foi adotado em 1890, em referência à Serra dos Pireneus, que marca a paisagem da região. As informações constam no levantamento sobre a criação dos municípios goianos publicado pela Casa Civil do Governo de Goiás.
A preservação do patrimônio histórico tornou-se uma das características mais reconhecidas de Pirenópolis. O conjunto arquitetônico, urbanístico, paisagístico e histórico do município recebeu proteção federal, com inscrição nos livros de tombo do Iphan em 1990. Entre os monumentos históricos estão igrejas, casarões e equipamentos culturais que ajudam a contar a formação de Goiás.
Além do patrimônio arquitetônico, a cidade reúne atrativos naturais, como cachoeiras, rios e áreas de serra. Festas tradicionais, manifestações culturais e eventos também integram a identidade local e contribuem para a atividade turística.
Em 2026, a comemoração dos 299 anos marcou a contagem regressiva para o tricentenário, previsto para 7 de outubro de 2027.
Quase três séculos depois de sua fundação, Pirenópolis enfrenta o desafio de preservar o patrimônio que sustenta parte de sua identidade e de sua economia, ao mesmo tempo em que atende às necessidades de quem vive no município. As reclamações dos moradores colocam em discussão como conciliar o crescimento urbano e turístico com a oferta de serviços públicos, a conservação ambiental e o direito à qualidade de vida.
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