Justiça do Rio proíbe buscas noturnas da PM na Maré; família acusa agente de ter matado pedreiro  

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A juíza Angélica dos Santos Costa determinou, nesta quinta-feira, a suspensão de buscas domiciliares e cumprimento de mandados de prisão, durante a noite, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. O local vem sendo alvo de constantes ações da Polícia Militar à procura do traficante Nicolas Pereira de Jesus, o Fat Family, e os bandidos que o resgataram do Hospital Souza Aguiar, no último dia 19. Segundo a magistrada, “é inadmissível que a polícia, em pleno século XXI não encontre o caminho de enfrentar a criminalidade sem expor o cidadão de bem”. Também nesta quinta, a família do ajudante de pedreiro José da Silva, de 40 anos, acusa um policial do Bope de ter disparado o tiro que o matou durante uma ação na Favela Nova Holanda, que fica na Maré, nesta quarta-feira. Na ocasião, uma mulher foi ferida por bala perdida.

– Aquilo lá é um inferno. Quero vender minha casinha para poder ir embora e ficar longe disso. Não era assim que a gente imaginava nossa vida no Rio de Janeiro. Viemos da Paraíba em busca de uma vida melhor. Éramos dez irmãos. E agora vamos voltar com um a menos. Eu só quero acreditar que a pessoa que matou o meu irmão vá pagar pelo seu crime. Se não foi na Justiça dos homens, que seja na de Deus – disse o pedreiro Luciano da Silva, de 41 anos.

Ele morava com José e os dois trabalhavam juntos numa obra na Nova Holanda. Após o trabalho ser encerrado, Luciano liberou o irmão para ir para casa. José tomaria um banho e encontraria outra irmã, também moradora da comunidade, para ir à igreja evangélica que frequentava.

– Ele era o mais carinhoso da família. Tinha seis filhos para criar. E agora, como é que eles vão ficar? – disse o irmão mais velho do ajudante de pedreiro, o taxista Tadeu da Silva, de 45 anos.

De acordo com ele, na Paraíba os irmãos trabalhavam em regime de semiescravidão num canavial. Por isso decidiram deixar o local:

– Mas qualquer coisa é melhor que esse barril de pólvora que é o Rio de Janeiro.

Tadeu contou que seu irmão tinha ficha criminal: há cerca de três anos, foi acusado de um assalto. Passou cerca de um ano preso.

– Eu não posso mentir: aconteceu. Foi uma acusação injusta. E ele saiu falando que nunca mais queria voltar para aquele inferno que é a cadeia. Meu irmão nunca na vida andou armado, nunca consumiu drogas. O que mais me dói é que ele foi morto e largado, sem documentos, no hospital. Parecendo um vagabundo. Mas ele era um trabalhador, do bem. Não posso deixar que seja lembrado como um vagabundo – disse o taxista.

‘População não pode ficar refém’

Além de determinar as ações de busca na Maré, na decisão judicial Angélica dos Santos Costa intima o secretário de Segurança José Mariano Beltrame, o comandante do Bope, o comandante do Batalhão de Choque e o comandante geral da PM para prestarem informações. Ela classifica ainda como um “absurdo” que o Rio, “diante da violência dos últimos anos, esteja vivendo momentos de desordem e total insegurança pública sem o mínimo retrocesso dos índices de criminalidade”.

A juíza destaca ainda que apesar de não haver dúvidas sobre a necessidade de ações para cumprir mandados de prisão, especialmente após o resgate de Fat Family, “os órgãos de segurança pública devem adotar as devidas providências para preservar vidas e o direito de ir e vir das pessoas, buscando através de serviços de inteligência e planejamento minimizar os riscos a uma população tão sofrida e assustada pelos casos de violência. A população não pode ficar refém de operações sem planejamento e açodadas”.

A assessoria de imprensa da PM informou que “A Polícia Militar planeja suas operações com informações do Setor de Inteligência para apreender armas e drogas e prender bandidos que cometem crimes cruéis contra a sociedade”. Em relação a José, a corporação diz que “De acordo com o BOPE, o batalhão não foi acionado para socorrer nenhum ferido nesta operação”.

 

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