Gretchen aos 60 anos, rebola no Setor de Autarquia e anima Carnaval de Brasília

Gretchen sobe no palco dez minutos antes do horário previsto, 21h50. Veste short jeans curto, top branco cheio de brilho, tênis branco com plataforma de uns quatro centímetros. Os cabelos muito longos, abaixo da cintura, muito lisos e já não mais volumosos caem às costas sob um boné igualmente branco de aba generosa. A aba esconde parcialmente o rosto — é o rosto o mais escondido na estrela brega do universo LGBT.
Gretchen, 60 anos, corpo sarado aparentemente sem o receituário insalubre das bombas. As coxas, grossas. A cintura, na medida. Os peitos, também.
Gretchen tem o vigor das mulheres trabalhadoras. Dança com firmeza, abre as pernas e os braços com a virilidade das fêmeas contemporâneas. Rebola as ancas já não mais com a fúria dos 20 anos. É uma mulher na plenitude dos 60 anos.
Depois da primeira música de apresentação, comenta que está vindo do Recife e que lá as redes comentaram que o top e o short não condizem com a idade dela.
— Pois se preparem, estou só começando!
Gretchen está na Praça dos Prazeres, no Setor de Autarquias Norte, em palco montado ao lado da sede do Banco do Brasil. Os moradores da 202 Sul, a residencial mais próxima, bem que tentaram impedir o Carnaval na área pública do setor gregário. Perderam.
Gretchen rebola sua vida desconcertante bem ao lado da Brasília certinha, das superquadras dos renques de árvores do doutor Lucio, dos pilotis limpinhos, do silêncio de igreja e da solidão de monastério.
