Coral de idosos apresenta serenata para celebrar o Natal

A princípio, Dona Conceição imaginou que a respiração carregada comprometeria a sua performance. Até explicou para as colegas que, sofrendo do mal de Chagas no esôfago, seria difícil puxar e soltar o ar no ritmo das canções. Também alertou sobre o problema no joelho. A dificuldade para se locomover, lembrou, já não garantia a assiduidade necessária. Mesmo assim, não foi dispensada. Afinal, o grupo não poderia abdicar da presença de uma pessoa tão animada. “Faça o que puder”, sentenciou o regente. Bastaram essas palavrinhas mágicas para que Maria Anunciação Sena Barbosa, a Conceição, se tornasse uma das mais assíduas integrantes do Coral da Associação dos Idosos Renascer dos Pioneiros da Vila Planalto. O coral, formado por senhores e senhoras da cidade, é um projeto de Kamai Freire e Gustavo Guimarães, alunos do último semestre de Música da Universidade de Brasília (UnB). O grupo apresenta a Serenata de Natal hoje, às 20h, na Igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompeia.
“O coral é a minha alegria. No começo fiquei preocupada de atrapalhar, porque não tenho muito fôlego. Mas, hoje, quando não venho aos ensaios, minha cadeira fica esperando”, afirmou Dona Conceição. Aos 83 anos, completados na última quinta-feira, ela é uma das primeiras moradoras da Vila, onde vive desde 1972. No local, viu os filhos crescerem, os netos chegarem e o marido partir. Superou a tristeza da viuvez com o apoio dos familiares e da vizinhança. E ela não para, mesmo que, às vezes, a respiração mais ofegante insista em lembrá-la de que é preciso desacelerar um pouco. “Já são mais de 25 anos que trabalho voluntariamente na associação. Faço de tudo e só não participo mais porque tenho pouca leitura”, explica.
O Coral da Associação dos Idosos Renascer dos Pioneiros da Vila Planalto nasceu por causa do comprometimento da produtora cultural Taiana Martins com a comunidade local, e da determinação de Kamai Freire e Gustavo Guimarães Elias.  Coube a Taiana, que mora na Vila, a função de identificar os artistas locais e, ao mesmo tempo, mapear as inciativas que poderiam contribuir para o desenvolvimento da cultura na cidade. Para isso, Taiana promoveu, no ano passado, o evento Palco Aberto. “A Associação Renascer ficou muito interessada em resgatar o coral” diz Tainá.

Lições técnicas

Enquanto Tainá buscava uma maneira de retomar o coral, os estudantes Kamai Freire, 24, e Gustavo Guimarães Elias, 29, procuravam uma maneira de colocar em prática as lições de técnicas de regência do curso de Música da UnB. Da união dos três colegas nascia o novo coral, em um ambiente mais que receptivo. Kamai e Gustavo, que também mora na região administrativa, queriam ter um coral como laboratório para experimentarem técnicas vocais, composições e arranjos.
“Dificuldades existiram, principalmente para que essas mulheres aprendessem a soltar a voz, que é como um sentimento de autoestima e de autoconfiança. Mas estamos conseguindo lapidar essas vozes e hoje percebo que o coral é como uma terapia para elas”, ressalta Kamai. “A voz é um instrumento nato. Todo mundo pode e deve cantar. E esse trabalho vai além da graduação. A ideia é expandir as atividades para que elas possam se apresentar em festivais na cidade e até fora do Distrito Federal”, completa Gustavo.
Domingas França Noia, 67, ainda tem dúvidas se é mesmo verdade o que prega o ditado popular. Afinal, “quem canta seus males espanta”? “Alivia, alivia muito”, afirma a pioneira de voz firme. Mesmo que ela admita, não anda com muita vontade de sorrir. E já vai avisando: não faltam motivos para a sua indignação. Pioneira, morava no acampamento Tamboriu desde 1964, até o dia que ele foi derrubado e os moradores removidos para a Vila Planalto. Domingas, no entanto, reclama que não conseguiu o seu lote e até hoje paga aluguel, mesmo tendo provado seus direitos. “Os governos passam e ninguém resolve o problema. Sinto muita tristeza”, afirmou. Em meio à aflição, ela solta a voz. E como canta! A soprano faz a diferença no grupo. “Eu adoro cantar. Sempre tive uma voz alta, forte, boa”, declara, sem falsa modéstia.

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