Pesquisadora da UnB alerta para risco de prédios em área da voçoroca às margens da BR-040, em Valparaíso
Mestranda em drenagem sustentável, Paloma Ludmyla afirma que região tem nascentes e solo hidromórfico; mudança recente no zoneamento permite construções de até oito pavimentos em área que antes era destinada à preservação ambiental.

A possibilidade de construir prédios de até oito pavimentos na região da voçoroca, às margens da BR-040, em Valparaíso de Goiás, preocupa a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Paloma Ludmyla, mestranda em drenagem sustentável. Em entrevista ao Jornal Opção Brasília/Entorno, ela alertou para os riscos ambientais de permitir a ocupação de uma área marcada pela presença de nascentes, solo hidromórfico e cursos naturais de água.
Segundo a pesquisadora, a região passou por mudanças no zoneamento urbano ao longo dos últimos anos. Uma área que aparecia como zona de preservação ambiental em mapas de 2012 teria sido parcialmente recortada em 2018 e, posteriormente, transformada em zona de uso misto, classificação que permite diferentes atividades urbanas, incluindo a construção de edifícios. “É uma região que tem muita nascente, tem solo hidromórfico, é uma área de vertente de água. Então, se impermeabilizar, aquela erosão vai aumentar, o volume de água vai aumentar. É uma área que precisa ser preservada”, afirmou Paloma.

Pesquisadora aponta risco de agravamento da erosão
A principal preocupação é o impacto da impermeabilização do solo, provocada pela construção de prédios, estacionamentos, ruas e outras estruturas urbanas. Com menos áreas permeáveis, uma parcela maior da água da chuva pode escoar pela superfície, aumentando a concentração do fluxo hídrico e a pressão sobre o terreno.
Na avaliação da pesquisadora, esse processo pode agravar a erosão já existente e ampliar a voçoroca, uma forma avançada de erosão do solo caracterizada pela abertura de grandes sulcos provocados, principalmente, pela ação concentrada da água.
Paloma defende que a área seja destinada à preservação e que sejam consideradas alternativas de manejo das águas pluviais, em vez da implantação de edifícios. “De repente, construir uma bacia lá dentro de contenção, que serve, inclusive, como um elemento paisagístico, como fizeram lá no final da Asa Norte. Mas construir prédio, não pode”, disse.
Uma bacia de contenção pode ajudar a armazenar temporariamente a água da chuva e controlar seu escoamento. A viabilidade de uma intervenção desse tipo, no entanto, depende de estudos técnicos que considerem as características do solo, a dinâmica das águas subterrâneas e a estabilidade da área.
Imagens indicam avanço da voçoroca
A pesquisadora também chama a atenção para a evolução da erosão ao longo dos anos. De acordo com a análise apresentada por ela, o crescimento da voçoroca entre 2005 e 2015 foi menor do que o observado no período de 2015 a 2019.
Esse segundo intervalo coincide com a construção do Shopping, nas proximidades da região. A partir de 2025, as imagens analisadas indicariam uma aceleração ainda maior do avanço da erosão.
A coincidência temporal, porém, não comprova, por si só, que a construção do empreendimento tenha causado ou acelerado o fenômeno. Para estabelecer essa relação, seriam necessários estudos que avaliassem as alterações na drenagem, na cobertura do solo e no fluxo de águas pluviais ao longo do período.
Ainda assim, a sequência de imagens reforça a necessidade de investigar os fatores que contribuem para o avanço da voçoroca e de avaliar os impactos de novas intervenções urbanas na área.
Córrego Barbatimão tem proteção ambiental específica
A região da voçoroca está localizada entre as áreas identificadas pelos números 31 e 37 no mapa apresentado. A faixa verde indicada na imagem corresponde ao córrego Barbatimão.

O curso d’água é uma Área de Preservação Permanente (APP), categoria de proteção ambiental prevista na legislação brasileira. A APP tem regras próprias de proteção, que não devem ser confundidas com as de uma Zona de Proteção Ambiental (ZPA), classificação relacionada ao zoneamento territorial.
A diferença é importante porque as duas categorias possuem fundamentos e regras específicas. A alteração do zoneamento de uma área não elimina automaticamente as proteções legais aplicáveis a um córrego ou a outras áreas protegidas.
Diante da possibilidade de adensamento urbano nas proximidades da voçoroca, o alerta da pesquisadora é para que a ocupação seja avaliada à luz das características ambientais da região. A presença de nascentes, o comportamento do solo e a dinâmica das águas precisam ser considerados antes da autorização de novas construções.
O desafio é conciliar o planejamento urbano com a segurança ambiental e a prevenção de danos. Para Paloma Ludmyla, a região exige preservação e soluções de drenagem compatíveis com suas características naturais, e não a ampliação da impermeabilização do solo por meio da construção de edifícios.
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