Estudos de presos da Papuda são escolhidos para Circuito de Ciências do DF
Desenvolvidos na Papuda sem internet, 6 projetos de detentos foram selecionados e serão apresentados por docentes nesta 6ª (4/9)

Seis projetos desenvolvidos por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do sistema prisional do Distrito Federal foram selecionados para a etapa regional do 15° Circuito de Ciências das Escolas Públicas do DF. A apresentação dos trabalhos ocorrerá nesta sexta-feira (4/9), no período matutino, no Centro de Ensino Médio Integrado do Cruzeiro (CEMI Cruzeiro).
Como os estudantes cumprem pena em regime fechado, as pesquisas desenvolvidas por eles serão apresentadas no evento pelos professores do Centro Educacional 01 de Brasília (CED 01). Para viabilizar os trabalhos, os docentes e orientadores iam ao Complexo Penitenciário da Papuda para acompanhar as etapas e orientar os projetos.
Para a professora Gabriela Oliveira, de 47 anos, trabalhar com a EJA no Circuito é uma “experiência profundamente transformadora”.
“Atendendo a alunos com idades entre 19 e 45 anos, o engajamento é visível desde o primeiro momento: eles ficam extremamente empolgados ao saberem que estão competindo em pé de igualdade com todas as escolas do Distrito Federal que ofertam a EJA”, comentou Gabriela.
Cada um dos seis projetos reuniu equipes de cerca de cinco estudantes. Guiados pelo tema geral da edição — “Elas na Ciência: conectando saberes, tecnologia e meio ambiente”, os trabalhos abordaram o protagonismo feminino por meio dos seguintes tópicos:
- Entre Vozes e Saberes: Memória, Linguagem e Ciência;
- Racismo Climático no Distrito Federal: um olhar sobre o Lago Sul e o Sol Nascente;
- Radioatividade: um jogo para aprender – a história de Marie Curie;
- Quem faz ciência? Percepções de estudantes homens da EJA sobre a participação das mulheres no conhecimento científico;
- Dona Absorvente: dispenser sustentável para dignidade menstrual – feito por eles, para elas;
- Moringa oleifera: propriedades nutricionais para o desenvolvimento sustentável.
“É muito gratificante acompanhar a evolução de cada um ao longo do processo e vê-los apresentando o trabalho com propriedade para os avaliadores.”
Para viabilizar as pesquisas sem o uso da internet, os professores forneceram conteúdos e materiais impressos. “Esse processo garante que eles se tornem os verdadeiros protagonistas do aprendizado, pois são eles que pesquisam, elaboram e apresentam o conteúdo para os próprios colegas de turma”, explicou Gabriela.

Nas imagens acima, é possível ver o projeto “Dona Absorvente: dispenser sustentável para dignidade menstrual – feito por eles, para elas”, desenvolvido pelos estudantes da EJA. Além do registro das professoras orientadoras ao lado de um dos banners expostos no Circuito de Ciências.
O professor Leonardo Silva, de 44 anos, orientador do trabalho sobre a ‘Moringa oleifera: propriedades nutricionais para o desenvolvimento sustentável’ descreveu a troca com os alunos: “Os alunos demonstraram enorme interesse em participar do circuito de ciências ao perceberem a conexão direta entre o tema ‘Moringa Oleifera’ e o cotidiano, descobrindo também que a matemática está presente em todos os lugares.”
Para ele, a vivência com os estudantes ultrapassou a sala de aula. “Proporcionando aos estudantes o resgate da cidadania e fortalecendo a autoestima, elementos fundamentais para o avanço no processo de ressocialização”, concluiu.
Já a professora Luciana Braga, de 38 anos, responsável pelo projeto ‘Entre Vozes e Saberes: Memória, Linguagem e Ciência’ afirma que os alunos se tornaram peça central da investigação científica “ao pesquisar, registrar e valorizar os saberes presentes em suas próprias famílias”. O projeto com os estudantes permitiu aos estudantes valorizar o conhecimento ancestral de suas próprias famílias ao reconhecerem mães e avós como detentoras de saber.
“Mais do que aprender sobre ciência, os estudantes perceberam que também podem produzi-la, questioná-la e transformá-la”, declarou Luciana.
Renata Sauer, de 51 anos, professora que orienta o projeto destaca que os estudantes perceberam foram estimulados e perceberam que a ciência faz parte da realidade de todos. “Essa descoberta provocou novos questionamentos, mobilizou a investigação e revelou que suas próprias experiências também podem ser ponto de partida para a construção do conhecimento”, disse.
Já a professora Maria Vanderlene Feitosa, de 55 anos, que orientou os alunos do projeto “Dona Absorvente: dispenser sustentável para dignidade menstrual – feito por eles, para elas” explicou que mediou o diálogo entre a sensibilidade dos estudantes e o rigor científico para “transformar a indignação em pesquisa de campo, dados concretos e um protótipo viável”.
“Ver homens, com tanta maturidade e respeito, discutindo pobreza menstrual, quebrando tabus e propondo uma solução sustentável, de baixo custo e de grande impacto, reafirmou em mim, aos 55 anos de idade, o poder de uma educação que acolhe, provoca e transforma”, concluiu.
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